15/08/2019

Cosmopolense conta como superou deficiência e se tornou jogador de futebol

Juninho, como é popularmente conhecido, joga Futebol de Amputados pela Ponte Preta

Letícia Leme 

“Bola na trave não altera o placar, bola na área sem ninguém pra cabecear, bola na rede pra fazer o gol. Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?”, a música que inebria a torcida brasileira e aos meninos que sonham em se tornar o próximo Pelé.

A infância do cosmopolense Maurício Mendes de Souza Júnior, popularmente conhecido como Juninho, não foi diferente. Desde pequeno o jogador alimentava o desejo de se tornar um craque da bola. No entanto, os obstáculos que ele teria que enfrentar estavam além de recursos financeiros – que é a dificuldade em comum entre as crianças que compartilham desse sonho.

Foto: Rogério Capela

Juninho nasceu como uma má formação congênita em uma das pernas, mas nem por isso deixou os sonhos de lado. “Como minha deficiência é de nascença, ser normal é ser do jeito que eu sou. Desde criança eu sempre gostei de assistir jogos de futebol, então na rua eu sempre brinquei com meus amigos, chutava bola, chutava latinha na escola como todo menino que sonha em ser jogador de futebol. Então na hora do recreio era aquela alegria de chutar lata. Tudo que tinha pra gente chutar a gente chutava”, relembra saudoso.

Foto: Rogério Capela

Como minha deficiência é de nascença, ser normal é ser do jeito que eu sou”

Sempre participativo no mundo do futebol, seja assistindo pela TV ou jogando nos campinhos do bairro, ele conta que a primeira participação dele em um jogo fez com que as pessoas ficassem cautelosas. “Na minha adolescência eu jogava mais bola na rua, nos campinhos que tinham espalhados pelos bairros. Cheguei a participar de um interclasse, mas era algo que as pessoas não viam com bons olhos, ficavam ‘ai, vai machucar’. Então jogar sempre foi complicado, principalmente por ser com ‘pessoas andantes’, que é como a gente chama”, relata.

Foto: Rogério Capela

Mais tarde, em 2012, Juninho conheceu a modalidade Futebol de Amputados, onde jogou pelo Corinthians e Instituto Só Vida, localizado em Mogi das Cruzes (SP). Para que pudesse treinar, era necessário que o atleta viajasse 400km, contando com ida e volta. “Fiquei durante cinco anos lá e foi uma dificuldade muito grande, porque era distante e tinha a questão do custo, cansaço. No começo eu era assíduo, mas ao longo do tempo começou a ficar meio complicado”, conta.

Atualmente o cosmopolense compete pelo time de Futebol de Amputados da Associação Atlética da Ponte Preta. Além disso, integrou a seleção brasileira em uma competição no México. “Ano passado teve várias fases de treinamento da seleção, então o técnico Rodrigo decidiu quais jogadores iriam compor o elenco da seleção. Como eu participei de todas as etapas de treinamento recebi a convocação. Os treinos de preparação foram bem forte, academia e treino com minha equipe”, explica.

Futebol de Amputados da Associação Atlética da Ponte Preta

Diante da necessidade de inclusão ao futebol que emergia em 2015, o cosmopolense formou uma equipe para amputados. No início foi atribuído o nome de Cosmocity, em alusão a cidade de Cosmópolis. Um pouco mais tarde, o time começou a crescer e passou a integrar a macaca através de uma parceria firmada entre eles. A partir de então, a equipe se tornou parte do time paulista alvinegro.

Time de Futebol de Amputados da Ponte Preta

“Damos esperança àquelas pessoas que devido algum trauma ou amputação, pensam que a vida acabou, mas através do nosso time eles reencontram a felicidade e o prazer de viver”

Mais importante que constituir um time estruturado e promover inclusão social, Juninho viu a oportunidade de auxiliar pessoas com limitações semelhantes a dele e contribuir para que fossem superadas. “Damos esperança àquelas pessoas que devido algum trauma ou amputação, pensam que a vida acabou, mas através do nosso time eles reencontram a felicidade e o prazer de viver. Sobretudo o reencontro ao esporte, que é algo que as pessoas quando perdem uma perna, ou um braço pensam que nunca mais vão poder praticar. Isso acaba sendo a minha maior motivação”, pondera.

Entre altos e baixos, é vida que segue!

Comum na vida de todo atleta, o cosmopolense relata que desde que iniciou a carreira enfrentou vários altos e baixos, o que segundo ele corroborou para o crescimento pessoal e profissional dele. “Com o passar dos anos tive muito aprendizado, passei por muita coisa: dias felizes e dias tristes. Já chorei e sorri, mas tudo tem um começo em que você vai aprendendo, se moldando, e eu evolui muito como atleta fora  e dentro de campo. Você aprende a ter mais autocontrole, não erra mais tanto nas coisas que você errava no começo. Hoje eu sou um jogador mais experiente, mais centrado”, exalta.

Juninho atribui a motivação dele ao time de amputados, visto que compartilha diariamente uma nova perspectiva de vida com aqueles que também viram no futebol um motivo para viver. “Isso me deu um gás a mais, um objetivo diferente do que eu imaginava, então acabou sendo um combustível muito positivo que fez eu levantar a cabeça, limpar a poeira e seguir em frente. Hoje eu posso realizar os sonhos de outra pessoa assim como eu realizei o meu, que é jogar o futebol de amputados”, expressa.

Foto: Rogério Capela

“O time acabou sendo um combustível muito positivo que fez eu levantar a cabeça, limpar a poeira e seguir em frente”

Ponte Preta no coração

Questionado sobre o time que carrega no coração, Juninho não esconde o carinho que sente pela macaca, mas também não revela ser o único. “Meu time do coração [risos] complicou. Vamos dizer que o time do meu coração hoje é a Ponte Preta, que é o time que me deu abertura, que tem abraçado o nosso projeto, então ele ganhou mais um torcedor nato”, frisa.

Assim como Neymar se espelha em Pelé, e muitos meninos se espelham em Neymar, Juninho tinha Ronaldinho Gaúcho como modelo de admiração pela genialidade no futebol.  Contudo, ele aprendeu a se auto admirar, afinal, saber reconhecer o próprio esforço e dedicação, é ser fã de si mesmo. “Eu acabei sendo a minha própria inspiração, porque eu sempre quis jogar bola, era um sonho. Eu sempre gostei de me superar, tudo que falavam que eu não conseguia eu ia lá e fazia, para provar não para os outros, mas para mim mesmo que eu era capaz”, revela.

Foto: Rogério Capela

“Tudo que falavam que eu não conseguia eu ia lá e fazia, para provar não para os outros, mas para mim mesmo que eu era capaz”

Por fim, Juninho enfatiza que a vida deve se basear em superar sonhos, assim como ele alcançou e lidou com todos os obstáculos que surgiram no meio do caminho. Hoje ele inspira meninos que desejam seguir pelo mundo do futebol, e sobretudo àqueles que por alguma deficiência se vêm fadados a desistir. “A vida não foi feita para ser lamentada e sim, superada!”, de autoria de Juninho, esse é o lema do time de amputados da Ponte Preta.

Futebol convencional X Futebol para amputados

Entre as duas formas de se jogar futebol há alguns pontos específicos que os diferem um do outro. Confira algumas regras que foram adaptadas do futebol convencional para o Futebol para amputados:

  • Futebol para amputados é disputado em campo de futebol Society, com dimensões mínimas de 60mX38m;
  • Cada equipe tem sete jogadores: seis da linha, amputados de uma das pernas; e um goleiro, amputados de um dos braços;
  • As partidas são dividas em dois tempos de 25 minutos com intervalo de 10  minutos;
  • Os técnicos podem pedir um tempo de um minuto para orientar seus atletas a cada etapa da partida;
  • A muleta não pode tocar na bola de forma intencional;
  • O goleiro não pode sair da área;
  • O tiro de meta não pode ultrapassar o meio campo;
  • O lateral é cobrado com o pé;
  • Não há limite para substituições e os jogadores substituídos podem voltar ao jogo;
  • Não existe impedimento.
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